terça-feira, 14 de agosto de 2007

Um vôo sem asas
“Vôo plano... Vôo raso... Enxergo grandes pinturas verdes, plano sobre elas. Enxergo tudo pela primeira e única vez. Testo o sabor de lugares próximos, mas tão completos. Bato asas... Meu único dia. Minhas únicas e preciosas vinte e quatro horas. Mas o que eu farei hoje?” Pensava aflita a borboleta recém saída dó seu casulo. Enxergava tudo perfeitamente, tinha plena noção de que o seu precioso tempo, na forma de bela criatura, não passava daquele dia. Voava alto, sentia o ar batendo nas asas, sentia o verde das árvores, oceano suave do céu, as cores manchadas de uma civilização que não lhe parecia estranha. De repente fazia parte dela, era ela, com asas...e um único dia de vida.“ O que farei agora?” Pensou. Não em tom de desespero, mas com o sentimento de liberdade infinita e um amor pela vida que nunca sonhara sentir. “Vou a busca do belo... Mas o que é o belo? Tudo me parece tão perfeito e harmonicamente situado... O que escolher? Baterei asas... Tenho asas! Sou mais uma bela criatura... Bela? O belo faz parte de mim?!... Me preenche e me faz viva”. A borboleta pousou num belo pomar repleto de maçãs. Sentiu-se especial... Sentiu-se única. Não existiam problemas, não existia sofrimento, a sua única dor era a felicidade tamanha que não lhe cabia no peito. Voou com todo o seu esplendor e vicissitude, parou numa janela... Observou uma jovem que acordara de um sono profundo. Resolveu continuar lá... A jovem levantara, arrumara o cabelo e estava saindo pela porta da frente da bela casa. A borboleta não pensou duas vezes, seguiu a jovem... Não sabia o que estava sentindo naquele momento, mas sabia que algo muito forte a levava àquela pessoa, naquele dia...Seu único dia.A garota foi para a rua, seguida pela borboleta. Ela não percebeu o ser que a observava, era muito insignificante aos olhos da moça. Tudo para ela era deveras pequeno. Não via o verde das árvores, não sentia a fragrância do pomar, para ela nem mesmo existia céu. Trazia os olhos pesados de dor, mas não uma dor de felicidade. Uma dor negra, repleta de desgraças que carregava nos seus vinte anos de vida. “Vinte anos!” Pensou a borboleta. “O que faria eu com vinte anos de vida?”. Sentiu um leve desespero, porém rápido. Nada ocupava mais os seus pensamentos, somente a felicidade de estar ali com a garota.A jovem parecia ter pressa, e passava nas ruas com largos passos, sem olhar para os lados, concentrada apenas na dor que lhe triturava os ossos. Aquilo não era vida. Pensava. Queria acabar com tudo aquilo imediatamente. Queria morrer como Virginia Woolf, tinha os bolsos repletos de pedras e na mochila levava uma faca, caso o plano falhasse. Estava tudo perfeito. De repente sentia-se muito mais feliz que a borboleta que nascera liberta. Sentia-se finalmente tendo assinada a sua alforria. Nada teria dado errado se, naquele momento, a borboleta não tivesse - finalmente - desviado a sua atenção, deixando-a ser atropelada por um veículo no asfalto.- Foi ela... A borboleta... Fez-me morrer!!! Gritou assustada. Todos correram em direção ao quarto. Tinha acordado do coma que estava há uma semana, pensaram os amigos e parentes. A jovem não parava de gritar eufórica “foi ela, a borboleta!” Todos acreditavam ser um delírio, daquela que esteve entre a vida e a morte nos últimos sete dias. Perguntavam-na, curiosos...” O que? Quem? Fostes morta por uma borboleta?” Jéssica olhou através da janela. Viu luz, viu o verde, o ciano e tudo mais que jamais sonhara ter existido. – Não. Ela deu o seu único dia de vida a mim... Fui salva. Por uma bela borboleta.

Um comentário:

Unknown disse...

MUito lindo esse texto...o que faríamos se tivessemos um só dia para viver?? Muitas vezes os dias são disperdiçados, mas nao seriam se tivessemos um só...
Amo Literatura, a realidade é muito dura, precisamos dos sonhos para sobrevivermos.
Sou formada em Literatura, e hoje sou o que sou devido a ela.
Quem escreve com o coração, é poeta.